Cómo citar este artículo: Lourerio, W., Rodrigues, G., Ducatti, R., Silva, M. y Dos Santos,
T. (2025). Capturados na Rede: um documentário para (re)pensar os crimes sexuais online
contra menores de idade no Brasil, Retos XXI, 9, 1-21.
Capturados na Rede: um documentário para
(re)pensar os crimes sexuais online contra
menores de idade no Brasil
Caught in the Net: a documentary to (re)think online sexual crimes
against minors in Brazil
Walk Lourerio
1
, Galdino Rodrigues de Sousa
2
, Ricardo Ducatti Coplas
3
, Mário
Silva de Oliveira
4
, Taciana dos Santos Magalhães
5
Fecha de recepción: 29 enero 2025; fecha de aceptación: 29 marzo 2025
Contenidos publicados bajo licencia Creative Commons
Resumo
O presente texto aborda o
documentário tcheco Capturados na
Rede (2020), dirigido por Barbora
Chalupová e Vít Klusák, que explora o
universo dos abusos sexuais online
1
Dr. en Ciencias, Universidade Federal Fluminense, correo electrónico:
loureiro.walk@gmail.com.
2
Dr. en Educación Física y Deportes, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), correo:
loureiro.walk@gmail.com
3
Dr. en Ciencias de la Educación y Deporte. Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ),
correo: ricardo@ufsj.edu.br.
4
Mg. en Psicología. Ciencias de la Educación y Deporte. Universidade Federal do Espírito Santo
(UFES), correo: marioobl@hotmail.com
5
Licenciada en Historia, Secretaria Estadual de Educação (SEDU). Universidade Federal de o
João del-Rei (UFSJ), correo: ricardo@ufsj.edu.br.
aos quais adolescentes e pré-
adolescentes, que utilizam mídias
sociais sem a supervisão de familiares
ou responsáveis, podem estar
vulneráveis. No filme, três atrizes criam
perfis fictícios em redes sociais,
CAPTURADOS NA REDE: UM DOCUMENTÁRIO PARA (RE)PENSAR OS CRIMES SEXUAIS
ONLINE CONTRA MENORES DE IDADE NO BRASIL
RETOS XXI, AÑO 2025, VOLUMEN 9
PA
GE
fingindo ser menores de idade, e
rapidamente tornam-se alvos de
predadores sexuais. Desse modo, o
filme alerta sobre a exposição
excessiva e os riscos inerentes aos
quais os escolares o expostos
quando navegam horas a fio na
internet, especialmente sem o
consentimento de pessoas adultas. Por
fim, busca-se estabelecer conexões
entre os temas apresentados no filme e
o contexto brasileiro, inclusive com
mediações parentais e nos espaços
educacionais, considerando as
especificidades culturais e sociais que
também expõem crianças e
adolescentes a riscos semelhantes no
ambiente virtual.
Palavras-chave: Capturados na Rede,
Abusos sexuais online, Mídias sociais,
Riscos online, Internet segura.
Abstract
This paper discusses the Czech
documentary Caught in the Net (2020),
directed by Barbora Chalupová and Vít
Klusák, which exposes the realm of
online sexual abuse that adolescents
and pre-adolescents using social media
without parental or guardian
6
A plataforma Filmicca é um site de streaming
que possui uma lista de filmes autorais, cults e
supervision may be subjected. In the
documentary, three actresses create
profiles on various social networks,
pretending to be underage, and
subsequently become victims of sexual
predators. The film thus warns about
the excessive exposure and risks faced
by school-aged children when they
spend extended periods online without
adult supervision or guidance. Finally,
the text aims to reflect on how this
audiovisual work can draw attention to
the Brazilian contexto.
Keyword: Caught in the Net, Online
sexual abuse, Social media, Online
risks, Secure internet.
INTRODUÇÃO
Após assistirmos, em dezembro de
2023, ao documentário tcheco
denominado V Siti, divulgado como
Caught in the Net nos países de língua
inglesa e disponibilizado no Brasil, pela
plataforma Filmicca,
6
sob o título de
Capturados na Rede (2020), decidimos
construir este ensaio, não apenas para
dar visibilidade à obra, mas também
para debater algumas questões
apresentadas por ela que podem
independentes de vários países do mundo,
acessíveis mediante assinatura. Disponível
em: https://www.filmicca.com.br.
LOURERIO, RODRIGUES, DUCATTI, SILVA, Y DOS SANTOS
RETOS XXI, AÑO 2025, VOLUMEN 9
PA
GE
impactar, direta ou indiretamente, a
vida dos integrantes da comunidade
escolar brasileira (docentes e,
principalmente, alunas e alunos).
Ao contrário do que alegam
alguns atores políticos mal-
intencionados, como políticos da
extrema direita, religiosos
conservadores e pseudo moralistas,
que frequentemente apontam a escola
como um ambiente perigoso
sexualmente para os alunos, os dados
demonstram outra realidade. De
acordo com estatísticas do Ministério
da Saúde, a maioria dos crimes
sexuais cometidos entre 2015 e 2021
no Brasil ocorreu no ambiente
doméstico. Segundo os dados, 72,4%
das meninas entre zero a nove anos de
idade foram violentadas dentro de suas
próprias casas, assim como 65,9% dos
meninos da mesma faixa etária. Entre
adolescentes de 10 a 19 anos, 63,5%
das vítimas de ambos os sexos
sofreram abusos sexuais dentro de
suas residências (Brasil, 2024).
Além disso, a escola,
frequentemente vista como alvo de
acusações infundadas, é mencionada
como um espaço que notifica a
ocorrência de crimes sexuais contra
crianças e adolescentes, enquanto a
família, local onde a maioria dos crimes
ocorre, não é citada como agente
notificante. Esses dados reforçam a
necessidade de um enfrentamento às
narrativas que visam deslegitimar a
educação como espaço inclusivo e de
proteção de direitos.
METODOLOGIA
Este texto não tem a intenção de
apresentar uma resenha acadêmica
tradicional, com resumo, descrições,
análise de aspectos técnicos ou
avaliações críticas de conteúdo e forma
do objeto cultural Capturados na Rede.
O objetivo principal é produzir um texto
analítico, por meio de reflexões
fundamentadas, que dialogue com o
documentário em constante
interlocução com a literatura
especializada. Busca-se, assim,
estabelecer paralelos entre as
denúncias apresentadas no filme e a
realidade de muitos estudantes
brasileiros, frequentemente expostos a
riscos sem o pleno conhecimento de
seus pais e responsáveis.
Nesse sentido, o texto seguirá,
em linhas gerais, a estrutura
cronológica das ações apresentadas
no documentário, com a inclusão de
alguns saltos temporais sempre que
CAPTURADOS NA REDE: UM DOCUMENTÁRIO PARA (RE)PENSAR OS CRIMES SEXUAIS
ONLINE CONTRA MENORES DE IDADE NO BRASIL
RETOS XXI, AÑO 2025, VOLUMEN 9
PA
GE
estes forem necessários para
enriquecer a análise ou ampliar a
compreensão dos temas abordados.
Tal abordagem visa não apenas
contextualizar os acontecimentos
narrados, mas também fomentar uma
discussão mais aprofundada e
pertinente sobre os temas em questão.
RESULTADOS
O documentário e sua relação com a
realidade brasileira
Dirigido pelos cineastas tchecos
Barbora Chalupová e Vít Klusák,
Capturados na Rede foi lançado em
2020. Com cem minutos de duração, o
documentário inicia com cenas de
crianças e adolescentes de diversas
faixas etárias, absortos em seus
smartphones, trocando mensagens em
redes sociais. Essa realidade não é
incomum no Brasil, considerando o
aumento constante do tempo que
crianças e adolescentes destinam às
redes sociais, frequentemente sem a
mediação ou orientação necessária por
parte dos pais ou responsáveis
(Grizólio; Scorsolini-Cominb, 2020).
Embora seja descrito por seus
diretores como “um experimento”
realizado na República Tcheca
(Capturados na Rede, 2020), o
documentário apresenta informações
alarmantes que encontram eco em
situações vivenciadas por
adolescentes e pré-adolescentes no
Brasil. A seguir, exploraremos algumas
dessas semelhanças, comparando os
dados apresentados na obra com
aqueles provenientes de estudos
realizados no contexto brasileiro.
1) De acordo com o documentário, 60%
das crianças tchecas acessam a
internet sem qualquer tipo de mediação
parental. A nível nacional, esse dado é
corroborado por uma pesquisa
qualitativa realizada no Brasil com 12
pais e mães de adolescentes, que
constatou que 58% deles também não
adotavam nenhuma forma de
acompanhamento do uso das redes
sociais por parte de seus filhos
(Grizólio & Scorsolini-Comin, 2023).
Um exemplo ilustrativo dessa
realidade foi identificado em uma
escola da rede municipal na qual um
dos autores deste texto atuou como
professor de Educação Física durante
o ano letivo de 2023. Nesse período,
descobriu-se que uma aluna de apenas
12 anos enviava imagens íntimas
("nudes") para colegas da turma por
LOURERIO, RODRIGUES, DUCATTI, SILVA, Y DOS SANTOS
RETOS XXI, AÑO 2025, VOLUMEN 9
PA
GE
meio de mensagens privadas. Quando
a mãe da estudante foi chamada para
uma reunião com a equipe pedagógica,
ela se mostrou surpresa com a
situação, mas admitiu que não exercia
qualquer tipo de acompanhamento
sobre o uso das redes sociais pela filha.
Além disso, confessou nunca ter
conversado com ela sobre os riscos
envolvidos no uso de ferramentas
digitais.
Esse exemplo, aliado aos dados
comparativos, evidencia a urgência de
abordagens educativas mais
estruturadas tanto no ambiente escolar
quanto no familiar, visando à
conscientização e à proteção de
crianças e adolescentes frente aos
desafios e perigos do ambiente digital.
Todavia, isso não significa que deva-se
desconsiderar as possíveis
contribuições das mídias no espaço
escolar.
Figura 1: Cartaz de divulgação, com as atrizes
que atuaram como meninas de 12 anos. Fonte:
Plataforma Filmicca.
2) Destaca-se o dado de que 41%
dos menores de idade tchecos
relataram ter recebido imagens
pornográficas de outra pessoa. Embora
os números registrados no Brasil sejam
menores, não são menos
preocupantes. Em 2021, “[...] 24% dos
meninos e 12% das meninas afirmaram
que já haviam recebido mensagens de
conteúdo sexual pela Internet” (Núcleo
de Informação…, 2022, p. 80). Esses
dados evidenciam um risco que não
deve ser subestimado.
De acordo com o relatório
"Pesquisa sobre o uso da Internet por
crianças e adolescentes no Brasil",
também de 2021, crianças e
adolescentes no país utilizam a internet
para diversas finalidades, destacando-
se as seguintes atividades: “Assistir a
vídeos, programas, filmes ou séries
(84%); ouvir música (80%); enviar
mensagens instantâneas (79%); e usar
redes sociais (78%) [...] (Ibidem, p.
80). Nesse contexto, esses indivíduos
encontram-se expostos a diferentes
riscos.
Livingstone e Stoilova (2021)
indicam que tais riscos incluem normas
opressivas de imagem corporal, cultura
da sexualização, mensagens sexuais
não consensuais, pressões sexuais
CAPTURADOS NA REDE: UM DOCUMENTÁRIO PARA (RE)PENSAR OS CRIMES SEXUAIS
ONLINE CONTRA MENORES DE IDADE NO BRASIL
RETOS XXI, AÑO 2025, VOLUMEN 9
PA
GE
adversas, aliciamento sexual,
sextorsão, geração e
compartilhamento de material de abuso
sexual infantil, pornografia (nociva ou
ilegal), incluindo streaming pago de
abuso sexual infantil, e até mesmo
tráfico para fins de exploração sexual.
Esses fatores destacam a
vulnerabilidade do ambiente digital.
Assim, ainda que a internet traga
inúmeros benefícios aos seus usuários,
ela também representa um espaço de
significativa vulnerabilidade,
especialmente porque “[...] pode ser o
espaço onde acontece a disseminação
e comercialização de imagens, vídeos
e conteúdos que sexualizam a criança
e o adolescente, contribuindo para que
a cultura da erotização destes e do
abuso se prolifere” (Pedersen, 2018, p.
4).
3) Cerca de 1/5 dos adolescentes
e pré-adolescentes tchecos não
recusaria encontrar-se
presencialmente com alguém com
quem mantém contato pela internet.
Em solo brasileiro, no ano de 2021:
“44% dos usuários de Internet de 9 a 17
anos reportaram que procuraram fazer
novos amigos pela Internet e 19% que
adicionaram pessoas que não
conheciam às suas listas de amigos”;
“As redes sociais foram o principal
meio pelo qual a população investigada
de 11 a 17 anos teve contato com
desconhecidos (28%)”; e “Entre
usuários da rede de 15 a 17 anos, 34%
afirmaram ter encontrado
pessoalmente com alguém que
conheceram pela Internet(Núcleo de
Informação…, 2022, p. 80).
Esses dados o motivos mais
que suficientes para advogarmos pela
importância da mediação parental no
uso da internet por adolescentes e pré-
adolescentes brasileiros. Esse debate
se torna ainda mais relevante quando
observamos que as novas tecnologias
digitais têm impactado os modos de
viver e os hábitos desse jovem público,
especialmente na maneira como se
relacionam com seus pares e na
formação de suas identidades (Fialho;
Sousa, 2019).
Convém esclarecer que a
mediação parental refere-se a “[...]
posturas adotadas pelos pais, que
compõem um conjunto de medidas que
devem estruturar a educação digital
dos filhos” (Grizólio; Scorsolini-Cominb,
2023). Trata-se, portanto, de uma entre
tantas ações cotidianas que os pais
precisam adotar na educação de seus
filhos. Contudo, é necessário
reconhecer que esse papel mediador
não é fácil nem simples de ser
LOURERIO, RODRIGUES, DUCATTI, SILVA, Y DOS SANTOS
RETOS XXI, AÑO 2025, VOLUMEN 9
PA
GE
exercido, especialmente à luz de
estudos que indicam que os interesses
do público jovem frequentemente
conflitam com os de seus responsáveis
(Castro, 2021; Nogueira, 2016;
Grizólio; Scorsolini-Cominb, 2023).
Isso se deve ao fato de que “[...] à
medida que as crianças crescem, elas
se tornam digitalmente mais
autônomas e seus interesses digitais
mudam muito rapidamente” (Castro,
2021, p. 6). Nesse sentido, destaca-se
também a não formação dos pais para
essa mediação.
Para compreender as ações, as
vantagens e os riscos enfrentados por
adolescentes e pré-adolescentes
brasileiros nas redes sociais, é
fundamental analisar o comportamento
desse público na internet. Segundo
Ponte et al. (2012, p. 3), isso ocorre por
meio de três tipos de posicionamentos
distintos:
[...] em primeiro lugar, como
receptores dos conteúdos que
são disponibilizados na internet
tanto pela indústria da dia
como pelos próprios usuários
que compartilham seus sites e
vídeos; outra posição adotada
é aquela na qual os usuários se
colocam como participantes
em contato com
desconhecidos que lhes
convidam para fazer parte de
sua rede; e, finalmente, como
atores na relação com seus
pares, ou seja, amigos e
colegas de escola,
aproximando os contatos ou
mesmo gerando situações de
conflito entre eles (Ponte et al.
2012, p. 3).
Não é de se estranhar, portanto,
que as crianças utilizem diferentes
estratégias para contornar a mediação
parental, especialmente quando se
considera que “[...] as percepções dos
pais são, muitas vezes, influenciadas
por pânicos sociais disseminados e
explorados, graças à sua atratividade,
pela mídia e pelos discursos públicos,
mas que resultam num desencontro de
expectativas” (Ponte et al., 2012, p. 5).
Após apresentarmos alguns dos
potenciais riscos para adolescentes e
pré-adolescentes ao redor do mundo,
destacados pelo documentário,
daremos continuidade à escrita deste
ensaio explorando a maneira como
Capturados na Rede foi estruturado.
Sempre que necessário, levantaremos
questões que consideramos relevantes
para a análise do enredo da obra
audiovisual, traçando, quando
CAPTURADOS NA REDE: UM DOCUMENTÁRIO PARA (RE)PENSAR OS CRIMES SEXUAIS
ONLINE CONTRA MENORES DE IDADE NO BRASIL
RETOS XXI, AÑO 2025, VOLUMEN 9
PA
GE
possível, paralelos com a realidade
brasileira, a legislação vigente e os
conhecimentos acadêmicos
produzidos no Brasil.
A seleção das atrizes e o início das
gravações do documentário
No decorrer do filme, os diretores
realizaram uma seleção com 23
garotas para identificar três atrizes com
15 anos ou mais que aparentassem ter
12 anos de idade e que fossem
capazes de se comportar como
adolescentes nas redes sociais. Na
República Tcheca, a responsabilidade
penal juvenil tem início aos 15 anos,
enquanto a maioridade penal é atingida
aos 18 anos. Para que seja
considerado crime, o abuso sexual
contra menores, mesmo sem a
ocorrência de relações sexuais
como aliciamento, trocas de
mensagens libidinosas, exibicionismo
de genitais, incitação ao envio de
sextings, entre outros atos , deve se
dar com pessoa com menos de 15
anos.
Durante o processo de seleção,
os diretores descobriram que 19 das 23
atrizes entrevistadas haviam
vivenciado situações que podem ser
definidas, segundo as leis da República
Tcheca, como abuso sexual online na
infância ou adolescência. Esse crime
pode ser caracterizado por atos como:
o recebimento de fotos de outra pessoa
nua; o uso de roupas sensuais para
atender ao desejo do abusador online;
a invasão do computador por meio de
programas hackers, resultando na
observação da vítima por webcam
durante trocas de roupa ou
masturbação; o recebimento de fotos
nuas capturadas pelo próprio
computador da vítima e a ameaça de
divulgação dessas imagens em sites
pornográficos, entre outras práticas.
Com a seleção das três atrizes,
foram criados perfis falsos nas redes
sociais utilizando fotos da infância e
adolescência delas. Além disso, três
quartos infantis distintos foram
construídos em um estúdio (Figura 2),
onde ocorreram as principais
interações ao longo de 10 dias. As
gravações foram realizadas entre 12h e
00h, utilizando câmeras e microfones
para registrar todos os eventos.
Para a realização do
documentário, foi elaborado um código
de conduta para as atrizes, que
esclareceu parte do processo de
construção da obra e apresentava as
seguintes diretrizes:
LOURERIO, RODRIGUES, DUCATTI, SILVA, Y DOS SANTOS
RETOS XXI, AÑO 2025, VOLUMEN 9
PA
GE
1) Não abordaremos ninguém,
apenas responderemos;
2) No início da conversa, as
atrizes sempre salientam que têm 12
anos;
3) o flertaremos. Não
seduziremos. Não provocaremos;
4) Para explicar os comandos [sic]
sexuais, responderemos
ingenuamente: ‘Não sei…’; ‘Sou
tímida’;
5) Responderemos aos pedidos
de envio de nude somente após
repetidas solicitações;
6) Os encontros presenciais
devem ser sempre iniciados pelo
predador;
7) Durante o projeto
consultaremos psicólogos, sexólogos,
advogados e investigadores criminais;
8) Usaremos as plataformas:
Facebook, Skype, Lide.cz, Snapchat e
Omegle (Capturados na Rede, 2020).
Figura 2: estúdio no qual Capturados na Rede
foi gravado. Fonte: Hypermarket Film, Milan
Jaroš.
Como Capturados na Rede é
categorizado como documentário, faz-
se necessária a explicação do que
esse tipo de obra cinematográfica
representa. De acordo com Machado
(2011), é muito difícil definir tais
produções pelo que elas são, devido ao
hibridismo que tem sido possível
verificar nelas. Dessa maneira “[...] em
geral se explica o documentário não
por suas qualidades intrínsecas, mas
pela negativa: documentário é não-
ficção (não por acaso, os povos de
língua inglesa chamam os
documentários de nonfiction films)”
(Ibidem, p. 6).
O documentário, portanto,
registra a experiência da equipe de
filmagem, seus integrantes, os fatos
aventurados e por eles documentados
(Hagemeyer, 2012). Assim, é o
resultado de um processo criativo de
seus diretores, marcado por seleção,
escolhas e recortes dos realizadores.
Tais ações levam os telespectadores à
apropriação de uma realidade
investigada que se caracteriza, em
grande medida, pela subjetividade das
pessoas que criaram o longa-
metragem (Puccini, 2022). Outro ponto
importante é a reflexão feita enquanto
ele é produzido, sobre o que se e
sobre a maneira por meio da qual
CAPTURADOS NA REDE: UM DOCUMENTÁRIO PARA (RE)PENSAR OS CRIMES SEXUAIS
ONLINE CONTRA MENORES DE IDADE NO BRASIL
RETOS XXI, AÑO 2025, VOLUMEN 9
PA
GE
mobiliza sentimentos e produz efeitos
(Ibidem).
Convém ressaltar que, por causa
de emoções potencialmente
mobilizadas por documentários que
versam sobre temas sensíveis (como a
pedofilia e os crimes sexuais cometidos
contra crianças e adolescentes), foi
uma decisão eticamente acertada
distorcer a imagem do rosto dos
homens que agiram com as atrizes
como predadores sexuais. Afinal, se
suas identidades fossem reveladas,
isso poderia despertar em outras
pessoas o desejo de confrontá-los,
talvez até de fazer justiça com as
próprias mãos. Nesse sentido
Capturados na Rede é hábil em
levantar e problematizar situações que
crianças e adolescentes podem estar
vivendo e às quais muitos de nós talvez
ainda não tenhamos prestado a devida
atenção, diante do tamanho e da
complexidade do problema.
Por se tratar de um documentário,
Capturados na Rede não se ocupa de
noticiar crimes sexuais online contra
crianças e adolescentes, isso é feito
pela mídia hegemônica. Também não é
papel desse tipo de obra audiovisual
apresentar dados de maneira exaustiva
(Salles, 2008), discutir o processo ou o
que leva algumas pessoas, quase
sempre homens mais velhos que
apresentam problemas com a própria
sexualidade, ao cometimento desse
tipo de delito.
Esses cuidados de Barbora
Chalupo e Vít Klusák podem ser
comparados à preocupação expressa
por Walter Benjamin no texto O
Narrador, que compõe o livro Obras
Escolhidas (Benjamin, 1987). Nele, o
filósofo demonstra ser necessário
recuperar o intercâmbio de
experiências que a narrativa foi
perdendo diante do excesso de
informações e fatos que são
transmitidos acompanhados de
explicações. Segundo o autor:
Cada manhã recebemos
notícias de todo o mundo. E, no
entanto, somos pobres em
histórias surpreendentes. A
razão é que os fatos nos
chegam acompanhados de
explicações. Em outras
palavras: quase nada do que
acontece está a serviço da
narrativa, e quase tudo está a
serviço da informação (Ibidem,
p. 203).
Desse modo, Capturados na
Rede busca proporcionar ao
espectador uma experiência que
LOURERIO, RODRIGUES, DUCATTI, SILVA, Y DOS SANTOS
RETOS XXI, AÑO 2025, VOLUMEN 9
PA
GE
mobiliza sentimentos e envolve todos
os sentidos (Salles, 2008), oferecendo
uma imersão tanto na perspectiva de
quem comete crimes sexuais online
quanto na vivência de crianças e
adolescentes que sofrem esses delitos.
Trata-se, portanto, de uma obra que
cumpre o que se propõe a realizar.
Nesse sentido, conforme a concepção
de Nichols (apud Corner, 1993), “um
bom documentário estimula a
discussão sobre o seu tema, não sobre
si mesmo”.
Apresentada a maneira como o
documentário foi construído, é
necessário abordar as interações
propriamente ditas mantidas durante
as filmagens, problematizando-as.
Como aconteceram as interações
das atrizes com os homens que as
contataram?
Após a criação do perfil de uma das
atrizes, ela recebeu 16 mensagens em
apenas cinco minutos após ativar sua
conta em uma rede social. De acordo
com as avaliações das atrizes, a
maioria das pessoas que entraram em
contato eram homens com idades
significativamente superiores aos 12
anos, idade que acreditavam ser a das
atrizes (Figura 3). Após alguns dias de
gravação, uma das atrizes chegou a
receber cerca de 900 solicitações de
amizade no Facebook.
Figura 3: Imagem dos perfis de algumas das
pessoas que entraram em contato com uma
das atrizes. Fonte: Imagem capturada do
documentário enviada, após solicitação, pela
plataforma Filmicca
Diversos homens, muitos deles
acima dos 30, 40 e amesmo 50 anos,
tentaram seduzir, aliciar e, em vários
casos, exibiram suas genitálias,
frequentemente se masturbando, sem
qualquer cerimônia ou pudor. É
importante ressaltar que, conforme
estipulado pelo código de ética seguido
pelas atrizes durante a gravação do
documentário, todas as interações
iniciadas online incluíam a afirmação
explícita de que tinham apenas 12 anos
de idade. No entanto, essa informação
não foi, em nenhum momento, um
impedimento ou fator de desconforto
para os interlocutores, como
evidenciado na Figura 4.
CAPTURADOS NA REDE: UM DOCUMENTÁRIO PARA (RE)PENSAR OS CRIMES SEXUAIS
ONLINE CONTRA MENORES DE IDADE NO BRASIL
RETOS XXI, AÑO 2025, VOLUMEN 9
PA
GE
Figura 4: Homem adulto afirmando que a idade
de 12 anos não é problema. Fonte: Imagem
capturada do documentário enviada, após
solicitação, pela plataforma Filmicca
Renáta Androvičová, sexóloga
que integrou a equipe do
documentário, comenta sobre os
comportamentos observados ao longo
do "experimento". Segundo ela, a
sexualidade dos homens mais velhos
que se masturbam na frente das atrizes
algo que ocorreu inúmeras vezes
parece ser vivida de forma desprovida
de sentimentos. Esses homens utilizam
aquelas que acreditam ser crianças
apenas com o objetivo imediato de
alcançar o orgasmo. Sobre atos como
esse, convém lembrar que, em nosso
país, tais práticas configuram crime:
Art. 241-D. Aliciar, assediar,
instigar ou constranger, por
qualquer meio de
comunicação, criança, com o
fim de com ela praticar ato
libidinoso:
Pena reclusão, de 1 (um) a 3
(três) anos, e multa.
Parágrafo único. Nas mesmas
penas incorre quem:
I facilita ou induz o acesso à
criança de material contendo
cena de sexo explícito ou
pornográfica com o fim de com
ela praticar ato libidinoso;
(Incluído pela Lei nº 11.829, de
2008)
II pratica as condutas
descritas no caput deste artigo
com o fim de induzir criança a
se exibir de forma pornográfica
ou sexualmente explícita.
(Incluído pela Lei nº 11.829, de
2008)
Art. 241-E. Para efeito dos
crimes previstos nesta Lei, a
expressão ‘cena de sexo
explícito ou pornográfica
compreende qualquer situação
que envolva criança ou
adolescente em atividades
sexuais explícitas, reais ou
simuladas, ou exibição dos
órgãos genitais de uma criança
ou adolescente para fins
primordialmente sexuais
(Brasil, 1990).
Nesse contexto, também
importa frisar que qualquer pessoa que
descubra ou tenha ciência de que uma
LOURERIO, RODRIGUES, DUCATTI, SILVA, Y DOS SANTOS
RETOS XXI, AÑO 2025, VOLUMEN 9
PA
GE
criança ou adolescente seja tima
desse tipo de contato ou aliciamento
deve levar tal fato ao conhecimento
tanto dos familiares quanto das
autoridades (conselho tutelar, polícia,
dentre outros).
A maquiadora do
documentário, Barbora Potužníková,
reconheceu um dos agressores
sexuais flagrados no documentário.
Segundo ela, além dele trabalhar com
crianças também organizava
acampamentos, viagens de esqui e
eventos infantis. Essa constatação
levou o documentário a outro nível: a
percepção de que uma pessoa
conhecida, que trabalha com crianças
e adolescentes, é capaz de seduzir e
violentar, por intermédio da internet,
adolescentes e pré-adolescentes.
As atrizes, que os
interlocutores acreditavam ser
menores de idade, foram aliciadas por
dezenas de homens. Eles visavam
obter fotos seminuas ou mesmo nuas
em troca de dinheiro. Uma rápida
discussão é feita no documentário
sobre as consequências do envio de
“nudes” ou sextings
7
na vida de uma
7
Essa expressão é originada da junção das palavras
inglesas sex (sexo) e texting (envio de mensagem) e
“[...] significa o compartilhamento de imagens e
mensagens sexuais implícitas (sugestivas para sexo)
ou explícitas (imagens digitais nuas, seminuas e de
adolescente. Quanto ao envio de
“nudes”, fica nítido para o telespectador
que o a noção por parte dos
adolescentes quanto às
consequências desse ato, nem o quão
vulneráveis eles podem ficar quando
esse tipo de imagem esnas mãos de
um estranho. Segundo a especialista
em bem-estar infantil Hana Konečná,
que participa do documentário como
consultora e integra a Children’s Crisis
Centre uma organização não
governamental da República Tcheca
que auxilia crianças vítimas de abusos
diversos , em vários casos nos quais
as adolescentes são chantageadas e
ameaçadas de terem suas intimidades
expostas, a única saída encontrada por
elas para lidar com esse tipo de
pressão é pôr fim à própria vida.
Não temos dados oficiais
acerca desse tipo de crime no Brasil,
tendo em vista que somente ao final
dos anos 1980 começaram a surgir
organizações preocupadas em
defender os direitos e dar atenção para
crianças e adolescentes vítimas de
violência no país (Santos, 2009).
Contudo, o problema é grave, uma vez
órgãos genitais) entre pares com o consentimento de
ambas as pessoas". LOUREIRO, Walk et al.
Ciberbullying na escola: formando professores a
partir do longa metragem “Ferrugem” e da literatura
especializada. Formação@Docente, Belo
Horizonte, v. 13, n. 2, p. 50-70, jul./dez. 2021. p. 57.
CAPTURADOS NA REDE: UM DOCUMENTÁRIO PARA (RE)PENSAR OS CRIMES SEXUAIS
ONLINE CONTRA MENORES DE IDADE NO BRASIL
RETOS XXI, AÑO 2025, VOLUMEN 9
PA
GE
que a Central Nacional de Crimes
Cibernéticos recebeu, somente em
2022, 40.572 denúncias de imagens de
abuso e exploração sexual infantil na
internet. Em 2023, esse número subiu
para 71.867, produzindo 77,13% de
aumento em apenas um ano
(Denúncias de abuso..., 2024).
Quando se considera que “[...]
as vivências de violência e exposição
são mais destrutivas na adolescência,
pois [ela] é uma fase em que ainda não
se tem uma estrutura emocional bem
desenvolvida” (Patrocinio; Bevilacqua,
2023, p. 14), o suicídio das meninas
expostas a sexting, à pornografia de
vingança, à extorsão sexual não é
incomum, tendo em vista que elas
tendem a ser as únicas culpabilizadas
pela própria exposição e dificilmente
recebem apoio de amigos, da família e
da instituição escolar. Em contexto
brasileiro, o longa metragem Ferrugem
(2018) apresenta um caso fictício de
uma estudante que sua vida
devassada após o compartilhamento
de um vídeo seu praticando sexo oral
em seu ex-namorado. Na película, a
única solução encontrada pela
adolescente para pôr fim ao sofrimento
8
Uma discussão sobre esse filme e sobre como é
possível trabalhá-lo nas escolas é realizada por
Loureiro (2021, p. 57).
é cometer suicídio, com um tiro na
própria cabeça, dentro de sua escola.
8
Ainda que seja uma história ficcional,
Ferrugem retrata elementos do
universo vivido por estudantes
brasileiros, que também têm precisado
lidar com as relações, aprendizagens,
vantagens, desvantagens e dilemas de
um mundo a cada dia mais digital.
Diante da insistência para que
fossem enviados nudes”, os
organizadores do documentário
optaram por postar quatro fotos falsas
de cada uma delas, de maneira
privada, para um grupo de 30 a 40
homens. Elas foram modificadas em
um programa de edição após duas
modelos de corpo posarem e terem
seus rostos substituídos. Além disso, o
tamanho das mamas nas imagens foi
reduzido, para que, de fato, parecesse
que as imagens eram mesmo de três
meninas de cerca de 12 anos de idade.
A intenção foi observar se (e como) as
fotografias seriam usadas contra elas.
A partir de então, as atrizes se
tornaram vítimas de ameaças e de
chantagem. Os homens diziam que
elas teriam suas fotos vazadas em
sites pornográficos. Alguns chegaram a
LOURERIO, RODRIGUES, DUCATTI, SILVA, Y DOS SANTOS
RETOS XXI, AÑO 2025, VOLUMEN 9
PA
GE
pedir relações sexuais para que as
imagens não fossem publicadas.
O advogado Františec
Vyskočil, outro consultor da equipe do
documentário, enumera, em conversa
com as atrizes, alguns crimes que os
homens do outro lado das redes sociais
têm cometido: violação, chantagem,
abuso sexual mesmo sem manter
relações sexuais, entre outros. Além
disso, ele lembra que as plataformas
das redes sociais têm pouco
compromisso em identificar e bloquear
esses tipos de comunicações, e que
não o fazem para não perder usuários,
cuja consequência é menos gente com
quem lucrar por meio de anúncios
patrocinados.
Por causa dessa “vista grossa”
realizada pelas grandes empresas de
tecnologia que dominam o mercado no
planeta, enfrentamos um contexto
complicado também aqui no Brasil,
dada a falta de regulamentação e a
infraestrutura precária que a rede
mundial de computadores e as redes
sociais apresentam pouca
segurança, baixa fiscalização e
ausência de leis que regulamentem
seu uso e garantam punições para
quem use esses recursos para cometer
delitos (Salles; Paula Filho; Candido
Junior, 2020).
Essa situação contribui para
que muitos indivíduos utilizem o
anonimato conferido pelo mundo digital
para cometer atos ilícitos, dos simples
aos mais complexos, como os crimes
cibernéticos sexuais (Brito; Haonat,
2013).
Apenas uma das diversas
interações apresentadas no
documentário se deu sem interesse
sexual. Trata-se de Lukáš, um
estudante de enfermagem de 20 anos,
que se mostrou um conselheiro quando
uma das atrizes disse que um homem
queria pagá-la para que ela exibisse
seu corpo. Em sentido oposto dos
predadores sexuais, Lukáš disse que
essa não é uma boa ideia, que a
exposição deve acontecer com
quem de fato ela goste e tenha
confiança.
Não demorou muito para que
os homens passassem a propor
encontros presenciais com as atrizes.
Foi então montado um aparato para
gravar os diálogos em um café. Sobre
isso, a lei tcheca prevê: reclusão de 2
anos para quem propõe um encontro
com menor de 15 anos de idade com a
intenção de cometer um crime de
motivação sexual; e prisão de 5 a 12
anos para quem ameaça de violência
ou recorre à violência para forçar uma
CAPTURADOS NA REDE: UM DOCUMENTÁRIO PARA (RE)PENSAR OS CRIMES SEXUAIS
ONLINE CONTRA MENORES DE IDADE NO BRASIL
RETOS XXI, AÑO 2025, VOLUMEN 9
PA
GE
menina menor de 15 anos à exposição
indecente ou à masturbação.
Figura 5: Homem olhando à volta para ver se o
suposto pai da vítima não espor perto. Fonte:
Imagem capturada do documentário enviada,
após solicitação, pela plataforma Filmicca
As atrizes foram orientadas a
lembrar do que tinham conversado nas
redes sociais, para que ficasse
caracterizado o desejo dos homens
com quem se encontravam em cometer
crimes, violentando meninas de 12
anos de idade. Essa realidade fica
ainda mais clara quando o diretor t
Klusák faz ligações para as atrizes
durante esses encontros, fingindo ser o
pai das personagens. Quando os
predadores ouvem que o suposto
responsável está por perto e que ele
quer ir ao encontro da filha, eles pagam
a conta e saem do local com pressa,
demonstrando terem dimensão do ato
criminoso cometido (Figuras 5 e 6).
Figura 6: Homem recolhendo seus pertences
para sair rapidamente por acreditar que o pai
da menina esindo ao encontro dela. Fonte:
Imagem capturada do documentário enviada,
após solicitação, pela plataforma Filmicca
Ao final do documentário, o
homem identificado pela maquiadora
Barbora Potužníková foi confrontado
pelos diretores e pelas atrizes para que
explicitasse os motivos pelos quais
aliciava menores de idade. Após negar
algumas vezes, dizendo que não havia
feito nada de errado ou que amesmo
tratava-se de um engano, o homem
passou a se defender com o argumento
de que se as meninas tivessem
educação e orientação dos pais elas
não cairiam na conversa dele.
Nesse cenário, o primeiro
problema é que os produtores suscitam
no homem respostas rasas,
equivocadas e evasivas, que ele
busca se livrar da situação provocada
pelos documentaristas, culpabilizando
as vítimas e seus pais. Desconsidera-
se que a pedofilia é uma patologia, um
transtorno de personalidade e
comportamento de preferência sexual
LOURERIO, RODRIGUES, DUCATTI, SILVA, Y DOS SANTOS
RETOS XXI, AÑO 2025, VOLUMEN 9
PA
GE
de adulto por crianças, uma parafilia
que suscita prática lesiva tanto para o
praticante, quanto para sua(s)
vítima(s), quando realizada(s)
(American Psychiatric Association,
2023).
Reconhecer esse aspecto
patológico não significa ser a favor ou
defender as ações dos sujeitos, mas
reafirmar que a pedofilia requer, além
de punição, identificação,
acompanhamento e cuidados
psicológicos, médicos (Anjos; Santos,
2009) e por que não? sociais. Por
fim, mas não menos importante, o tipo
de enfrentamento apresentado no
documentário pode acabar suscitando
ao telespectador e/ou aos entes das
vítimas da ação de pedófilos
sentimentos que podem levar à “justiça
com as próprias os”, quando, na
verdade, existem os caminhos legais
apropriados para denúncia, apuração e
punição desses crimes.
Nos últimos instantes de
Capturados na Rede, descobrimos, por
meio de textos apresentados na tela,
que 2.458 homens mantiveram contato
com as três atrizes durante os 10 dias
de gravação e que elas chegaram a
participar de 21 encontros nas
semanas seguintes. Em outro
momento do filme um casal propõe a
uma das atrizes a realização de um
ménage à trois. Outro homem
chantageou insistentemente outra atriz,
ameaçando-a de diversas formas,
inclusive que postaria as fotos que ele
acreditava serem dela na internet,
chegando a cobrar dinheiro para não
fazê-lo. A polícia da República Tcheca
solicitou todo material filmado durante
o documentário para iniciar um
processo penal e apurar as questões
denunciadas.
Em síntese, Capturados na
Rede foi certeiro em apresentar os
abusos sexuais online de crianças e
adolescentes tchecas de maneira
realista e, portanto, dura, chamando a
atenção para a exposição excessiva e
para os riscos que esses sujeitos
podem correr quando navegam pelas
mídias sociais por horas a fio sem
supervisão de familiares ou
responsáveis. A obra cinematográfica
faz denúncias que precisam começar a
ser observadas nos mais diversos
países do globo, ainda mais em um
período no qual “As disputas por
visualizações e likes passam a reger os
laços que se organizam
preponderantemente em torno da
imagem, da exibição e da solicitação
do olhar” (Gomes; Pedrosa Filho;
Teixeira, 2021, p. 92), cenário que
CAPTURADOS NA REDE: UM DOCUMENTÁRIO PARA (RE)PENSAR OS CRIMES SEXUAIS
ONLINE CONTRA MENORES DE IDADE NO BRASIL
RETOS XXI, AÑO 2025, VOLUMEN 9
PA
GE
pode agravar ainda mais a situação
dos mais jovens na internet e nas redes
sociais.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Diante da discussão realizada neste
texto, algumas questões que, a
exemplo do que ocorre na República
Tcheca, precisam ser consideradas em
solo brasileiro. Inicialmente, por mais
que a mediação parental não seja fácil
nem simples de implementar, o franco
diálogo dos responsáveis com as
crianças, pré-adolescentes e
adolescentes ainda é o principal e o
melhor caminho para a educação e
segurança desses na internet e nas
redes sociais, pois pode permitir a eles
identificar quando estão sendo vítimas
de abusos sexuais online e a denunciar
tal situação para um adulto de
confiança.
Em segundo lugar, por mais
que, não sem razão, os docentes
sintam-se sobrecarregados e
desvalorizados no ambiente escolar
dada a baixa remuneração, a falta de
reconhecimento e o excesso de
funções que a escola e seus
profissionais m assumindo ao longo
do tempo , é inegável que a escola
pode e deve ser um lugar para a
detecção precoce de casos de abusos
sexuais, online ou não. Mudanças de
humor e de comportamento repentinos,
agressividade, o despertar da
sexualidade de maneira muito precoce
em relação aos colegas da mesma
faixa etária: tudo isso pode indicar que
problemas acontecendo. É papel da
escola e de seus profissionais ouvir
seus alunos e fazer os
encaminhamentos necessários com a
família, se as suspeitas forem
confirmadas e, caso necessário, com o
conselho tutelar, caso nada seja feito.
Nesse sentido, torna-se
interessante para o desenvolvimento
escolar organizar um momento para
assistir, se não ao documentário
inteiro, ao menos a trechos do
Capturados na Rede e realizar uma
discussão com os docentes nas
escolas e, principalmente, com os pais
e responsáveis. Isso pode despertar o
olhar dos professores e alertar as
famílias sobre a possibilidade da
ocorrência dos problemas denunciados
no documentário, bem como propiciar o
debate sobre dinâmicas e estratégias
de conversação que os adultos
poderão adotar com crianças, pré-
adolescentes e adolescentes para que
eles possam se abrir.
LOURERIO, RODRIGUES, DUCATTI, SILVA, Y DOS SANTOS
RETOS XXI, AÑO 2025, VOLUMEN 9
PA
GE
Finalmente, gostaríamos muito
que essa resenha trouxesse frutos,
dando visibilidade para o documentário
em si e levando a discussão trazida à
baila neste texto, pelo menos para
dentro do sistema escolar brasileiro,
quiçá dentro dos lares dos alunos.
REFERÊNCIAS
American Psychiatric Association.
(2023). Manual diagnóstico e
estatístico de transtornos
mentais: DSM-5-TR (5ª ed.).
Artmed.
Anjos, K. F., & Santos, V. C. (2009).
Pedophilia: Analysis against
pedophilic chemical castration.
Revista de Enfermagem UFPE
on-line, 3(2), 374381.
https://doi.org/10.5205/reuol.202-
1995-3-CE.0302200924.
Benjamin, W. (1987). Obras
escolhidas: magia e técnica, arte
e política (3ª ed.). Brasiliense.
Brasil. (1990). Lei n. 8.069, de 13 de
julho de 1990. Dispõe sobre o
Estatuto da Criança e do
Adolescente e outras
providências. Recuperado em 27
de dezembro de 2023, de
https://www.planalto.gov.br/ccivil
_03/leis/l8069.htm.
Brasil. (2024). Notificações de violência
sexual contra crianças e
adolescentes no Brasil, 2015 a
2021. Boletim Epidemiológico,
54(8). Recuperado em 25 de maio
de 2024, de
https://www.gov.br/saude/pt-
br/centrais-de-
conteudo/publicacoes/boletins/ep
idemiologicos/edicoes/2023/bolet
im-epidemiologico-volume-54-no-
08.
Betín De La Hoz, A. B., Rodríguez
Fuentes, A., Caurcel Cara, M. J.,
& Gallardo Montes, C. P. (2023).
Effectiveness of a digital literacy
program in High School Basic
education students. Espiral.
Cuadernos del Profesorado,
16(34), 12-27.
https://doi.org/10.25115/ecp.v16i
34.9516
Brito, R. G. G., & Haonat, Â. I. (2013).
Aplicabilidade das normas penais
nas condutas ilícitas de
cyberbullying cometidas em redes
sociais na internet. Revista
Esmat, 5(6), 201232.
https://doi.org/10.34060/reesmat.
v5i6.63.
CAPTURADOS NA REDE: UM DOCUMENTÁRIO PARA (RE)PENSAR OS CRIMES SEXUAIS
ONLINE CONTRA MENORES DE IDADE NO BRASIL
RETOS XXI, AÑO 2025, VOLUMEN 9
PA
GE
Capturados na rede [Filme]. (2020).
Direção: B. Chalupo & V.
Klusák. Produção: Hyper Market
Film. República Tcheca: Hyper
Market Film. Disponível em
https://www.filmicca.com.br/film/c
apturados-na-rede. Recuperado
em 23 de dezembro de 2023.
Castro, T. S. (2021). "Cuidado com
quem você fala na internet":
Mediação parental pelo olhar de
pré-adolescentes. Cadernos
Cedes, 41(113), 413.
https://doi.org/10.590/CC231361.
Corner, J. (1993). Bill Nichols,
representing reality: Issues and
concepts in documentary. Screen,
34(4), 414417.
https://doi.org/10.1093/screen/34.
4.414.
Denúncias de abuso sexual infantil na
internet aumentam quase 80% no
Brasil. (2024, 6 de fevereiro).
Jornal Nacional. Recuperado em
10 de janeiro de 2024, de
https://g1.globo.com/jornal-
nacional/noticia/2024/02/06/denu
ncias-de-abuso-sexual-infantil-
na-internet-aumentam-quase-
80percent-no-brasil.ghtml.
Ferrugem [Filme]. (2018). Direção: A.
Muritiba. Produção: A. Junior. Rio
de Janeiro: Globo Filmes. (109
min.).
Fialho, L. M. F., & Sousa, F. G. A.
(2019). Juventudes e redes
sociais: Interações e orientações
educacionais. Revista Exitus,
9(1), 202231.
https://doi.org/10.24065/2237-
9460.2019v9n1id721.
Filmicca. (2023). Streaming de cinema
autoral, cult e independente.
Recuperado em 11 de dezembro
de 2023, de
https://www.filmicca.com.br.
Gomes, A. C. C., Pedrosa Filho, R. B.
A., & Teixeira, L. C. (2021). Nem
ver, nem olhar: Visualizar! Sobre
a exibição dos adolescentes nas
redes sociais. Ágora: Estudos em
Teoria Psicanalítica, 24(1), 91
99. https://doi.org/10.1590/1809-
44142021001011
Grizólio, T. C., & Scorsolini-Comin, F.
(2020). Como a mediação
parental tem orientado o uso de
internet do público infanto-
juvenil? Psicologia Escolar e
Educacional, 24, 110.
https://doi.org/10.1590/2175-
35392020217310
Grizólio, T. C., & Scorsolini-Comin, F.
(2023). O que dizem os pais sobre
o uso de internet por parte de
LOURERIO, RODRIGUES, DUCATTI, SILVA, Y DOS SANTOS
RETOS XXI, AÑO 2025, VOLUMEN 9
PA
GE
seus filhos adolescentes?
Psicologia USP, 34, e200140, 1
11. https://doi.org/10.1590/0103-
6564e200140
Hagemeyer, R. R. (2012). História &
Audiovisual. Autêntica.
Livingstone, S., & Stoilova, M. (2021).
The 4Cs: Classifying online risk to
children. Children Online:
Research and Evidence, 115.
https://doi.org/10.21241/ssoar.71
817
Loureiro, W., et al. (2021).
Ciberbullying na escola:
Formando professores a partir do
longa-metragem "Ferrugem" e da
literatura especializada.
Formação@Docente, 13(2), 50
70.
Machado, A. (2011). Novos territórios
do documentário. Doc On-line,
11, 524. Recuperado em 10 de
fevereiro de 2024, de
https://www.doc.ubi.pt/11/dossier
_arlindo_machado.pdf
Nogueira, J. C. (2016). “Sites de
Obaid”: O que incomoda as
crianças na internet. [Dissertação
de Mestrado, Pontifícia
Universidade Católica do Rio de
Janeiro].
Núcleo de Informação e Coordenação
do Ponto BR. (2022). Pesquisa
sobre o uso da Internet por
crianças e adolescentes no
Brasil: TIC Kids Online Brasil
2021. Comitê Gestor da Internet
no Brasil. Recuperado em 12 de
março de 2024, de
https://cetic.br/media/docs/publi
cacoes
Patrocino, L. B., & Bevilacqua, P. D.
(2023). O que nudes e
divulgação não autorizada de
imagens íntimas têm a lembrar à
escola? Educação e Pesquisa,
49, e259986, 118.
https://doi.org/10.1590/S1678-
4634202349259986por
Pedersen, J. R., et al. (2018). Rodas de
conversa: Em debate a violência
sexual contra crianças e
adolescentes. Mundo Livre,
4(1), 4760.
Ponte, C., Jorge, A., Simões, J. A., &
Cardoso, D. S. (2012). Crianças
e internet em Portugal: Acessos,
usos, riscos, mediações -
Resultados do inquérito europeu
EU Kids Online. Minerva
Coimbra.
Puccini, S. (2022). Roteiro de
documentário: Da pré-produção
à pós-produção. Papirus.
Rodríguez, A. (2022). Presencia y
permanencia de las enseñanzas
CAPTURADOS NA REDE: UM DOCUMENTÁRIO PARA (RE)PENSAR OS CRIMES SEXUAIS
ONLINE CONTRA MENORES DE IDADE NO BRASIL
RETOS XXI, AÑO 2025, VOLUMEN 9
PA
GE
no presenciales a partir de la
COVID. Retos XXI, 5, 1-9.
https://revistaseug.ugr.es/index.
php/RETOSXXI/article/view/252
68
Rodríguez, A., Navarro, A., Carrillo,
M.J. e Isla, L. (2023). University
coaching experience and
academic performance.
Education Sciences, 13 (248), 3,
248.
https://doi.org/10.3390/educsci1
3030248
Rodríguez, A. (2024). Pluralidad y
potencial de la investigación
educativa universitaria.
Cuadernos de Pedagogía. 555,
sección artículos, 1-6.
Rodríguez, A., Betín, A. B., Caurcel, M.
J. y Gallardo, C. P. (2024).
Estudio de la competencia digital
en alumnado de secundaria
colombiano. Revista Aula
Abierta, 53(2), 119-128.
https://doi.org/10.17811/rifie.203
12
Salles, J. M. (2008). Diferenças entre
notícia e documentário. Trecho
da entrevista concedida à TV
Câmara, Brasília, 12 de
fevereiro. Recuperado em 11 de
fevereiro de 2024, de
https://www.youtube.com/watch
?v=J6cjVR_tTxc
Salles, L. A., Paula Filho, P. L., &
Candido Junior, A. (2020).
Estimação de idade em imagens
digitais a partir de deep learning
para apoiar análise pericial.
Revista Eletrônica de Iniciação
Científica em Computação,
18(2), 115.
https://doi.org/10.5753/reic.2020
.1716
Santos, B. R., & Ippolito, R. (2009).
Guia de referência: Construindo
uma cultura de prevenção à
violência sexual. Childhood -
Instituto WCF-Brasil.